sábado, 12 de fevereiro de 2022

Bem-aventuranças

 As bem-aventuranças quebram o círculo do ódio


“Bem-aventurados, sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem” (Lc 6,22).


Estamos vivendo uma nova e preocupante situação nas relações entre as pessoas, entre as diferentes denominações religiosas, entre as diferentes ideologias políticas. Há uma aliança entre a extrema direita ultra-neoliberal, homófoga, sexista, racista, xenófoba, machista, moralista, anti-ecológica, negacionista da ciência e da mudança climática... e as organizações “cristãs” conservadoras de caráter fundamentalista. Situação que se manifesta como a mais grosseira manipulação do cristianismo e a perversão do sagrado, pois se apoia nos discursos e nas práticas de ódio dos partidos e dos grupos neo-fascistas de todo o mundo. 

Tal perversão religiosa se alimenta do ódio, cria divisões, espalha mentiras e difamações, fomenta a violên-cia entre seus seguidores...; tudo isso tem um forte impacto negativo, pois se espalha muito rápido em toda a sociedade, usando, sobretudo as plataformas de mídia e redes de internet. 

Revela-se aqui a face mais triste do processo de profunda desumanização que vivemos.


Muitos analistas do atual contexto afirmam que está nascendo uma “nova religião”, talvez a mais perversa, a mais destruidora do planeta e da humanidade: “a religião do ódio”. 

Parafraseando o filósofo Descarte, muitas pessoas afirmam tranquilamente: “Eu odeio, logo eu sou”; ou “eu odeio, logo existo”. O ódio passa a ser a auto-afirmação e a auto-constituição por meio da negação e da aniquilação do outro, sobretudo do outro que sente, pensa e ama de maneira diferente.

Em outras palavras, através do ódio aos outros, da eliminação das pessoas e dos coletivos odiados (negros, indígenas, homoafetivos, imigrantes...), aquele que odeia confirma sua própria existência através deste argumento de morte: o outro não existe, logo eu existo como o único que resta. Além disso, a aniquilação do outro através do ódio produz prazer. Por exemplo, o torturador desfruta de prazer na hora de torturar. “Ódio e prazer acabam sendo uma só coisa” (Anders). Quanto mais se espalha e mais vezes se repete o ato da aniquilação, mais tende a se espalhar o prazer do ódio e o prazer de ser a si mesmo.


O ódio não surge do nada: tem um contexto histórico-cultural-religioso-político específico. Existem causas, motivos, razões que se apresentam como oportunidades para ativar a faísca da explosão do ódio e da intolerância. São práticas e convicções friamente calculadas, largamente cultivadas e transmitidas pelas redes sociais, alimentadas por foros de debate, publicações, meios de comunicação, discursos... 

Mas, no fundo, tudo tem sua origem no coração do ser humano, pois este é capaz do “pior” e do “melhor”; ele carrega em seu interior tanto as “bem-aventuranças” como as “mal-aventuranças”.

Quando o ser humano mata sua sensibilidade e seu espírito de compaixão, quando atrofia sua capacidade de discernimento, quando não reconhece no outro seus valores, suas qualidades, sua cultura..., temos aí o cultivo do “caldo venenoso” do fanatismo que alimenta a cultura da morte.

Tal modo de proceder implica uma nítida contradição com os princípios próprios do cristianismo, centrados no perdão, no amor ao próximo, no espírito das bem-aventuranças. É uma tremenda incoerência afirmar ser seguidor(a) de Jesus e deixar-se dominar pelo instinto da vingança (“olho por olho e dente por dente”), pelo prazer em disseminar mentiras e expressar ódio, por emitir julgamentos preconceituosos e intolerantes, etc.


É em meio a este mundo marcado pela exclusão, violência, fanatismo... que devemos abrir nossos ouvidos para escutar a proclamação das “bem-aventuranças”, feita por Jesus.  Elas não são leis que se impõem a partir de fora, mas dinamismos de vida que já estão presentes no mais profundo do ser humano. Elas mani-festam aquilo que é mais divino e humano no interior de cada um. Pulsa em todos nós um desejo latente de felicidade descentrada, de relações sadias, de convivência harmoniosa, de sensibilidade solidária... 

É preciso favorecer ambientes humanizadores para que as bem-aventuranças aflorem com toda intensidade.

Qualquer tentativa de aclarar racionalmente o sentido das bem-aventuranças está fadada ao fracasso. Sem uma experiência profunda do humano, as bem-aventuranças são um sarcasmo. Só a partir do mais profundo sentido espiritual elas podem ser compreendidas e assumidas como um modo humano de viver.

É o texto mais comentado de todo o evangelho, mas é também o mais difícil. Inverte radicalmente nossa escala de valores. Pode ser feliz o pobre, o que chora, o que passa fome, o oprimido?

Proclama-se ditoso o pobre, não a pobreza; ditoso, não por ser pobre, mas porque ele não é causa de que outro sofra. Ditoso porque, apesar de tudo, ele pode destravar(expandir) sua humanidade. As bem-aventu-ranças não são um sim de Deus à pobreza, nem ao sofrimento, mas um rotundo não de Deus às situações de injustiça. Sempre que agimos a partir do egoísmo, há injustiça. Sempre que impedimos que o outro cresça, há injustiça.

O evangelho não incentiva valorizar a pobreza em si mesma, mas instiga-nos a não ser causa do sofrimento do outro. A pobreza evangélica sempre faz referência ao outro.

Assim, ditoso o pobre, não por ser pobre, mas por não causar pobreza; ditoso o que chora, não porque é sensível, mas por não causar dor aos outros, fazendo-os chorar; ditoso o que passa fome, não porque não tenha nada que comer, mas porque vive a espírito de partilha e não suporta vendo os outros com fome; ditoso aquele que é odiado e sofre perseguição, não por ser incompreendido, mas por sua atitude profética em favor dos injustiçados e excluídos. Esta é a profunda mensagem das bem-aventuranças.

Ser ditoso é ser libre de toda atadura que nos impede expandir nossa humanidade.


Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus está revelando que seu Pai e nosso Pai não é o Deus que vem complicar nossa vida com cobranças, ritos, penitências, mortificações, leis que alimentam culpa... O Deus de Jesus é o “Deus da felicidade” e Ele quer que todos os seus filhos e filhas vivam intensamente a felicidade. Felicidade como integração interior, harmonia nas relações com os outros, sintonia com a criação e abertura filial a Deus.

Em grego, felicidade é “eudaimonia”. A ideia de “eudaimonia” é a de alguém que é impulsionado de dentro para fora. No latim, a expressão correspondente é “felicitas,atis”. Fertilidade e felicidade têm raízes comuns. Somos felizes quando somos fecundos. Não devemos nos afastar da noção de felicidade como fertilidade. O fértil é aquele que mantém a vida. É a marca da bio-proteção, da capacidade de gerar e defender a vida. Sem a possibilidade da felicidade, sem a proteção vital, sem o arremessar para adiante, a gente não se move (em hebraico, felicidade é “mahala”: andar para a frente). A felicidade é um sentimento descentrado, pois perfuma e transforma o ambiente, carregado de tristeza e morte.

É preciso recordar que ser feliz não é ter um céu sem tempestades, caminho sem acidentes, trabalhos sem cansaço, relações sem decepções...

Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nos desafios, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. Ser feliz não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos. Não é apenas ter alegria com os aplausos, mas ter alegria no anonimato.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz não é uma conquista, mas uma atitude de quem sabe viajar para dentro de seu próprio ser e mobilizar seus recursos oblativos. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se ator da própria história.


Texto bíblico:  Lc 6,17.20-26


Na oração: Repassar, sentindo e saboreando, o significado de cada uma das bem-aventuranças, deixando-as ressoar no coração e dei-xando que o próprio coração revele sua fome e sede de ser bem-aventurado.

- Diante da cultura do ódio que impera em nossa sociedade, como você rea-ge? Você é canal de transmissão de mentiras, julgamentos, preconceitos... ou presença humanizadora, expandindo seus recursos bem-aventurados?


Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O que há em mim é sobretudo cansaço

 O que há em mim é sobretudo cansaço —

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...

9-10-1934

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 64.

domingo, 3 de outubro de 2021

Histórias da meia noite - Machado de Assis



  - Número de páginas: 226

- Edição: 2ª edição

- Ano de publicação: 1977

- Autora(a): Machado de Assis

- Editora: Civilização Brasileira

- Por que li: Desafio de ler clássicos neste ano

- O livro é uma coletânea de contos escritos por Machado de Assis. Esta é uma edição comentada.

- Ponto fraco: Não achei.

- Ponto forte: Os contos Aurora sem dia e Ponto de vista

- Recomendo: Para quem gosta de histórias do cotidiano

-Nota: 10



domingo, 12 de setembro de 2021

Maria, toda de Deus e tão humana




 - Número de páginas: 260

- Autora(a): Afonso Murad

- Editora: Paulinas

- Por que li: Para aprender um pouco sobre Maria

- O livro é sobre Maria, a mãe de Jesus

- Ponto fraco: Repetitivo.

- Ponto forte: O capítulo sobre as aparições

- Recomendo: Para quem quer conhecer sobre Maria

-Nota: 8

- Uma frase do livro: 

domingo, 1 de agosto de 2021

Século XXI

  Bem vindo ao século XXI.


Aqui o sexo é livre e o amor se tornou um bolso cheio de notas.

Onde perder o celular é pior do que perder os teus valores. Onde a moda é fumar e beber, e se não fizer isso, você está obsoleto. Onde o banheiro se tornou estúdio para fotos e a igreja, o lugar perfeito para check in.

Século XXI, onde homens e mulheres temem uma gravidez muito mais que HIV. Onde o serviço de entrega de pizza chega mais rápido do que a ambulância.

Onde as pessoas morrem de medo de terroristas e criminosos muito mais do que temem a Deus. Onde as roupas decidem o valor de uma pessoa e ter dinheiro é mais importante do que ter amigos ou até mesmo família.

Século XXI, onde as crianças são capazes de desistir dos seus pais pelo seu amor virtual. Onde os pais esquecem de reunir a família à mesa para um jantar harmonioso, conversando sobre o dia a dia pois estão entretidos no seu trabalho ou celular.

Onde homens e mulheres muitas vezes, só querem relacionamentos sem obrigações e seu único 'compromisso' se torna posar para fotos e postar nas redes sociais jurando amor eterno. Onde o amor se tornou público ou uma peça de teatro.

Onde o mais popular ou o mais seguido com mais curtidas em fotos é aquele que aparenta esbanjar felicidade; aquele que posta fotos em lugares legais e badalados rodeados por 'amizades vazias' com 'amores incertos' e 'famílias desunidas'.

Onde as pessoas se esqueceram de cuidar do espírito, da alma vazia e resolveram cuidar e cultuar os seus corpos. Onde vale mais uma lipoaspiração para ter o corpo desejado do 'mundo artístico' do que um diploma universitário.

Onde uma foto na academia tem muito mais curtidas do que uma foto estudando ou praticando boas ações.

Século XXI, aqui você só sobrevive se jogar com a 'razão', e você é destruído se agir com o teu coração!"

Desconheço o autor do texto.

Decepção


 

sábado, 31 de julho de 2021

Você me ama?

 — Você me ama? Perguntou Alice.

— Não, não te amo! Respondeu o Coelho Branco.
Alice franziu a testa e juntou as mãos como fazia sempre que se sentia ferida.
—Vês? Retorquiu o Coelho Branco.
Agora vais começar a perguntar-te o que te torna tão imperfeita e o que fizeste de mal para que eu não consiga amar-te pelo menos um pouco.
Sabes, é por esta razão que não te posso amar. Nem sempre serás amada Alice, haverá dias em que os outros estarão cansados e aborrecidos com a vida, terão a cabeça nas nuvens e irão magoar-te.
Porque as pessoas são assim, de algum modo sempre acabam por ferir os sentimentos uns dos outros, seja por descuido, incompreensão ou conflitos consigo mesmos.
Se tu não te amares, ao menos um pouco, se não crias uma couraça de amor próprio e de felicidade ao redor do teu Coração, os débeis dissabores causados pelos outros tornar-se-ão letais e destruir-te-ão.
A primeira vez que te vi fiz um pacto comigo mesmo: "Evitarei amar-te até aprenderes a amar-te a ti mesma!"
_Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas